A ideia de escrever este livro chegou-me juntamente com o seu título, em latim.
Quando comecei a pensar nele, perguntei-me se não seria pretensioso dar-lhe esse nome. E me pareceu que não, porque embora “a instituição da moral” seja, em português, a tradução literal de “moralis institutio”, as duas locuções dizem coisas diferentes.
Ao se falar, por exemplo, “o contrato social”, muita gente é levada a pensar num documento concreto que, algum dia, se teria escrito ao redor de uma mesa.
O que eu quero dizer é que a moral é uma criação humana, mas algo que não se encontra no plano das realidades físicas; em outras palavras, é um produto histórico, uma realização cultural, que se constrói no tempo. E o latim transmite melhor essa impressão do que o português.
Quando escrevi a “Ética”[1], ainda não havia amadurecido as ideias que pretendo expor aqui. Aquele é um livro bastante abrangente, com algumas noções fundamentais que não se costuma encontrar em reflexões análogas (como, por exemplo: a distinção entre moralidade e moral; e a conceituação da moral como um processo social de segundo grau, ou metaprocesso). Mas deixou de lado outros temas fundamentais, que agora me sinto encorajado a enfrentar, tais como: o papel da racionalidade na moral; a origem dos preceitos morais; a moral como a dimensão própria da vida humana.
São muitos os livros sobre moral, seja aqueles que se escrevem modernamente, seja os que já foram escritos desde que a humanidade tem essa preocupação. É difícil, entretanto, encontrar neles um consenso básico. A par do ceticismo ético,[2] identificamos três corpos bem distintos, que poderiam ser designados como “escolas”: a ética de Aristóteles, a ética de Kant e o utilitarismo.
Seria errôneo considerá-los como opiniões divergentes ou antagônicas sobre um mesmo tema; cada um deles, é verdade, tomou a moral como objeto do seu estudo; mas tendo adotado, sobre os fatos da moral, um ponto de partida diferente, é como se tivessem falado sobre coisas distintas; de modo que não podem ser somados por quem espere construir com eles um corpo teórico único. Se a moral fosse um território, cada um desses conjuntos seria uma península, com escassa interligação e uma paisagem diferente.
A dificuldade de apreensão do fato moral impede, até aqui, que se integrem as diferentes perspectivas, de modo a permitir – à semelhança do que aconteceu, há muito, com a lógica – que se constitua a ética como ciência; isto é, a partir de um consenso sobre o seu objeto, a construção, acima dele, de um conjunto sistemático e ordenado de proposições, suficientemente abrangente e eficaz para iluminar nossa inteligência e orientar nossa ação.
Meu propósito é caminhar nessa direção, o que dá, a esta reflexão, a sua diretriz teórica, desenvolvida na primeira parte deste livro.
[1] Sérgio Sérvulo da Cunha, Ética (São Paulo, Saraiva, 2012).
[2] Quanto ao ceticismo ético, recomendo a leitura de Bernard Williams, no capítulo primeiro de sua “Morality” (há edição brasileira: Moral – uma introdução à ética, Martins Fontes, São Paulo, 2005), intitulado “O homem amoral”, pp. 1-18.
PRÓLOGO
PARTE I – CONCEITO DE MORAL
INTRODUÇÃO
1.1 – O FATO MORAL
1.2 A LEI MORAL
1.3 A NECESSIDADE DA MORAL
1.4 O CONHECIMENTO DA LEI MORAL
1.5 O CONTEÚDO DA LEI MORAL
1.6 A BUSCA DA NORMA MORAL
1.7 A DIMENSÃO MORAL
1.8 DEVER, VALOR
1.9 A DRAMATICIDADE DA EXPERIÊNCIA MORAL
1.10 A VISEIRA DO INDIVIDUALISMO
PARTE II - UM SALTO PRAGMÁTICO
INTRODUÇÃO
2.1 UM PARADIGMA NÃO INDIVIDUALISTA PARA A MORAL
2.2 O INDIVIDUALISMO CORPORATIVO
2.3 AS ESFERAS DA MORALIDADE
2.4 A MICRO E A MACROMORAL
2.5 A DUPLA FACE DO DIREITO
2.6 O SENTIDO DO GREGÁRIO
2.7 LIBERAIS CONTRA AS LIBERDADES?
2.8 O MUNDO HUMANO É PLURAL
2.9 O MERGULHO DESINDIVIDUALIZADOR NO GREGÁRIO
2.10 UMA SOCIEDADE PERSONALIZANTE
PARTE III - CONCLUSÕES
3.1 OBSERVAÇÕES FINAIS
APÊNDICE
1 - CRÍTON, DE PLATÃO*
2 - O JULGAMENTO DE SÓCRATES
Sobre o autor
Sérgio Sérvulo da Cunha nasceu em Santos, em 1935. Formou-se em Direito e Filosofia pela USP. Foi procurador do Estado de São Paulo, vice-prefeito de Santos e Secretário Municipal de Assuntos Jurídicos. No Conselho Federal da OAB, coordenou a comissão que atuou na Constituinte de 1987-1988.
No Ministério da Justiça, foi chefe de gabinete do ministro Márcio Thomas Bastos. É autor de vários livros de Direito e Filosofia.
É casado com Yara Paolozzi, tem cinco filhos e sete netos.
Autor: Sérgio Sérvulo da Cunha
Editora: Barra Livros
Tamanho: 14 x 21 cm - 112 páginas.
Edição: 1ª/ 2021
ISBN: 978-65-87675-03-9