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Alma Feminina

Sobre o Romance

"Nina é uma jornalista em início de carreira que inicia um romance com o possessivo e sexy Edu, justamente no momento em que recebe uma proposta profissional que promete mudar sua vida. Os dois terão que superar questões íntimas e pessoais, ou seguir por caminhos separados."


Descrição rápida:

Título: Alma Feminina

Autor: Vaitsman, Adriana

Editora: Barra Livros

Assunto: Romance brasileiro

Edição – 1ª 2016

ISBN 978-85-64530-33-1


Contracapa 


Este é o tipo de livro que, desde a primeira até a última palavra, o leitor não vai desgrudar os olhos. Com uma linguagem solta e vocabulário moderno, a autora deu vida à personagem Nina, uma jornalista recém-formada que logo ao ingressar num jornal recebe uma proposta irrecusável para trabalhar numa Rede de TV. Só que Nina iniciara um romance com Edu, seu colega no jornal. O momento era de mudanças e a todo o momento o leitor se pergunta se o casal vai aguentar firme as investidas de Fernando, seu novo chefe. 

O que Nina não sabia era que havia muita coisa por trás da proposta de trabalho que recebera. É quando descobre que Edu e Fernando eram inimigos de longa data e sucedem episódios de pura emoção que aproximam cada vez mais o leitor da trama. 

O livro conta a história a partir da perspectiva de uma jornalista que aspira o sucesso profissional ao mesmo tempo em que descobre ser possível viver uma vida amorosa ardente e bem-sucedida. 




Autora


Adriana Vaitsman nasceu no Rio de Janeiro, onde vive atualmente com o marido e três filhos. Leitora assídua, principalmente de romances, desde pequena escreve textos e crônicas. Graduou-se em enfermagem e atua como docente. Publicou seu primeiro livro em 2011, voltado à sua área de atuação. A paixão pelos livros e a vontade de contar histórias às pessoas a fez mergulhar em seu projeto literário e a apresentar ao público este romance, Alma feminina. “O primeiro de muitos que virão por aí...” promete a autora.




Prólogo



“Suba o primeiro degrau com fé.

Não é necessário que você veja toda a escada.

Apenas dê o primeiro passo.”

Martin Luther King



Mas afinal, o que é o amor? Como saber que ele está lá? Por que lutar contra? Ah, o amor... Há quem diga que ele nos leva longe. Ouso dizer que é o único sentimento que, de verdade, importa.

Por amor fazemos loucuras. Podemos nos perder, ou nos encontrar. O amor pode até ser cego, mas nunca surdo e mudo, porque quem ama precisa escutar o outro, e se fazer ouvir.

No início, era um apenas um sonho, mas acreditei nele, e finalmente minha obra, Alma Feminina, está aí, para ser compartilhada com vocês. Não foi fácil, mas consegui. Frase clichê? Talvez, mas é a pura verdade. Não sabia como faria isso acontecer, mas sabia que faria.

Quando me perguntam de onde tiro inspiração para escrever, respondo que sou apenas uma expectadora da vida, e descobri que gosto de contar histórias às pessoas. 

Agradecimentos? Devo muitos. Em primeiro lugar a Deus, que carinhosamente chamo de Universo. A esta editora, por acreditar em mim. Ao meu marido, Marcelo Jacob, por embarcar em todos os meus projetos. Aos meus filhos Marcelo, Iago e Gabriel, pelo apoio. A todos os que não acreditaram, pois me motivaram a provar que estavam errados. E aos que acreditaram, um agradecimento especial, vocês são os melhores!

Espero que esta história proporcione a vocês, leitores, o mesmo prazer que tive em escrevê-la e que se apaixonem por Edu e Nina do mesmo jeito que me apaixonei. 

Minhas palavras são apenas: Gratidão, gratidão e gratidão!



Adriana Vaitsman




Capítulo um  - Não sou dessas


Acordo com o barulho estridente do celular no modo despertador. Tenho vontade de jogar longe. Não sei de onde vem esse meu mau humor de manhã. A genética pelo menos não é capaz de explicar. Minha mãe, desde que me entendo por gente, acorda sempre às seis em ponto. haja o que houver, e nunca a vi reclamar. Sinto saudades de quando ela vinha me acordar. Desde que me mudei para ter meu próprio espaço, tenho que administrar meu horário de acordar e muitas outras coisas que fazem parte da rotina dos adultos. 

Corro para o banho e quando saio coloco a cafeteira para trabalhar, enquanto mergulho no armário, totalmente bagunçado, para montar o look  do dia. Um jeans, uma branquinha básica e uns acessórios dão o toque final no estilo. O cabelo vai preso mesmo, não tive tempo de secar ontem à noite, então preciso conter meus cachos que teimam em permanecer rebeldes. Calço um par de sapatilhas coloridas e pego minha bolsa. Um gole no café, uma breve passada de olhos pelo celular e... Saco! O Edu, meu chefe, deixou duas mensagens no celular corporativo, instruindo-me para que eu vá para a baixada fluminense, cobrir um crime na saída de uma casa noturna. Como não li as mensagens mais cedo, tenho de seguir para lá por conta própria. O restante do pessoal já foi. Bela maneira de começar a semana!

Entro no carro, ligo o GPS e dirijo-me ao local indicado. Pego um trânsito de arrasar na linha vermelha e infelizmente chego atrasada, já após o trabalho da perícia. Encontro mais um colega do jornal e tento conversar com as pessoas no local para entender o ocorrido. Volto para a redação, e começo a montar o quebra-cabeça das informações, para explicar o fato ao leitor ávido por desgraça. Fico pensando no tipo de gente que lê isso. Pessoas com inclinação para todo tipo de miséria humana. Vibram com acidentes, atropelamentos, suicídios e crimes. Não vou conseguir entender isso nunca, mas esse é o perfil dos leitores do jornal onde trabalho. Graças a eles consigo pagar as minhas contas e comparado aos meus estágios anteriores, não tenho muito do que reclamar.

Voltando ao jornal, entro na redação e dou bom dia a todos. Quase ninguém responde. Estão sempre distraídos pelos muitos afazeres. Sento-me e ligo o computador. De repente Vanessa, a secretária do chefão, vem me passar alguns recados. Ela faz um tipo simpático e timidamente falso. Meu sexto sentido me diz para desconfiar de gente muito boazinha, de fala mansa, superfofa. Essas pessoas me fazem acionar um sinal de alerta. Detesto gente fofa!

Para meu alívio ela me passa os recados, dá uma meia-volta desajeitada e sai puxando para baixo sua saia superjusta. Eu agradeço e sorrio para ela também. Fico imaginando como ela conseguiu entrar nessa saia, que de tão justa parece costurada no corpo, o que explica uma fenda na lateral, para que as pernas possam garantir um mínimo de mobilidade e não necrosem com o aperto do tecido. Tenho vontade de rir da cena que imaginei, mas me controlo.

Começo a redigir a matéria e quando levanto a cabeça levo um susto, dou de cara com os olhos azuis maravilhosos do Edu. Ele vive me cercando e já tentou me convidar para almoçar algumas vezes. Nunca aceitei. Ele se aproxima mais, me dá um sorrisinho cínico do tipo “assustei você?” e pergunta:

– E aí, já terminou a matéria?

– É, estou montando o quebra-cabeça, que história essa...

– Infelizmente Nina, todos os dias acontece uma história dessas. O lado ruim é que depois de certo tempo você acaba não se espantando mais...

Ele continua falando, mas na verdade não presto atenção em nada, a não ser naqueles olhos. Fiquei até com calor! Fico me perguntando o que ele quer comigo, com certeza não veio até aqui para filosofar sobre o trabalho da imprensa, veio? Dou mais um pouquinho de corda, afinal, não é todo dia que um Deus Grego desses vem parar na minha mesa.

Ultimamente, no quesito homens, estou completamente desanimada, desde que terminei meu namoro de oito anos com o Bruno. Namorava desde os dezessete anos com o queridinho da minha família, neto de um amigo do meu falecido avô, que foi parar na minha vida praticamente à base de lavagem cerebral. Ele faz o tipo bom moço, um “mosca morta” acima de qualquer suspeita, mas foi bem espertinho para sair com a Julia, minha ex-amiga desde então. Voltando ao Edu, ele me lança uma pergunta direta e inesperada:

– Tá a fim de continuar o papo depois do trabalho? Beber alguma coisa?

– Não sei se seria boa ideia...

Ele não se intimida.

– Só porque trabalhamos juntos não significa que não possamos ter um merecido happy hour. Sei que sua manhã foi intensa. Não tem nada demais em sair com um colega de trabalho para beber alguma coisa depois de um dia difícil...

Não adianta negar, o jeito com que ele faz o convite parecer tão simples é irresistível. Acabo concordando meio sem convicção e combinando nossa saída para o final do expediente. O que é que um cara desses vai querer comigo? Apesar de ele ser meu chefe, decido pagar para ver. Há meses não saio com ninguém. Afinal, ele é interessante e bem bonito. O que pode acontecer? Não sou nenhuma donzela indefesa.  Falando assim parece que sou do tipo segura e devoradora de homens. Longe disso, sou reservada e até um pouco tradicional para os padrões atuais. Minha família sempre foi e sempre será minha base, e, ainda que eu tenha sentido necessidade de ter meu próprio espaço, eles continuarão sendo meu tudo. 

No fim da tarde, peço ao Edu um tempo para me arrumar antes de irmos e instruo para que ele vá primeiro. Não quero ser motivo de comentário na redação. Já basta a fofa ter fixado aqueles olhos e cílios postiços contornados de lápis barato em nós. Não quero problemas. Uma vez no banheiro escovo os dentes, retoco a maquiagem, dou uma checada na depilação e na calcinha. Tudo em dia. Meu Deus, no que eu estou pensando? Desvio os meus pensamentos e em um minuto já estou no elevador a caminho do estacionamento.

Marcamos num shopping, deixando claro que quero apenas uma happy hour e nada mais. Deixo o carro no estacionamento e chego ao bar combinado. Ele já está a minha espera. A garçonete me encaminha para a mesa e sai balançando o rabo de cavalo toda saltitante. Não sei o que ele tem que deixa as mulheres assim. Serão os olhos azuis com a pele morena e os seus estimados um metro e noventa de altura? Ele não é exatamente um tipo frequentador de academia, mas tem um corpo atlético, sem exageros. Não quero dar muita bola, pois tenho a impressão de que ele sabe o impacto que é capaz de causar e se aproveita disso. Olho para ele e dou um sorriso meio sem graça, sentando-me à sua frente. Durante alguns minutos conversamos sobre amenidades como o trânsito, o trabalho e o início da primavera trazendo um calor fora de época. De repente paramos de falar ao mesmo tempo e um silêncio toma conta do momento. Para quebrar o clima, recomeço:

– Então, a que devo a honra do convite?

Falo em tom de brincadeira quase rindo da minha própria pergunta. Ele me encara sério e responde:

– Não vou negar que ultimamente tenho observado você. Alguma coisa me chamou atenção. Então, quis te convidar para sair. Achei que você nunca fosse aceitar, mas aqui estamos nós. – Ele diz com sinceridade.

Que ótimo! Acho que banquei a fácil. Então resolvo responder à altura:

– Também não sei por que aceitei, já que nunca havíamos nos falado fora das reuniões e do ambiente do trabalho, mas algo me chamou atenção em você também, então aqui estamos.

Quis me deixar sem graça, mas não me deixei intimidar por ele. Por fim relaxamos e retomamos o bate papo. 

– Sendo assim, vamos aproveitar o tempo, fala mais de você, além de linda e inteligente, o que mais tem para me contar? – Ele diz, tentando ser gentil.

– Linda e inteligente é por sua conta. Sou uma mulher comum, com uma vida comum, venho de uma família grande e agitada. Acabei de me mudar da casa dos meus pais, precisava ter meu próprio espaço, e trabalho onde e como você já sabe, para pagar as minhas contas. Não há muito que dizer.

– A mulher linda, inteligente e comum que paga as suas próprias contas tem um namorado? – Ele pergunta, divertido. 

É bem direto. Acho que gosto disso nele.

– Na verdade não estou querendo ninguém neste momento. Terminei um relacionamento de oito anos e quase me casei após a terminar a faculdade, mas felizmente vi a tempo que não ia ser uma boa. Isso é uma entrevista de emprego? – Disparo. – Parece que estou preenchendo uma ficha. 

Ele ri e ignora minha pergunta.

– Relacionamento de oito anos? Você começou a namorar no Jardim de Infância? 

Rimos. O homem tem senso de humor e também gosto disso. De repente me dou conta de que estou em pleno dia de semana, num shopping próximo à minha casa, conversando sobre minha vida pessoal com um quase estranho e que por incrível que pareça isso de alguma forma é excitante. Deixo rolar.

– E você, fala um pouco da sua vida. 

– Nada de especial também, moro sozinho. Quando não estou trabalhando gosto de viajar e andar de moto. Tenho uma Custom.

– Uau! Deve ser emocionante! Se eu te falar que nunca andei de moto na minha vida, você acredita?

– Claro, conheço muita gente que não gosta ou tem medo. Quer tentar? Num outro dia?

– Quem sabe...

Por mais de duas horas conversamos sobre motos, viagens e descobrimos um gosto em comum pelo cinema, música e leitura. Descubro que o Edu além de lindo é muito bom de papo. Que outras qualidades ele deve ter? Por um momento viajo imaginando como deve ser na hora H... Ele faz o tipo romântico ou tem aquela pegada firme? De repente um calor começa a me consumir. Acho que é hora de pedir a conta e ir embora, afinal, amanhã é dia de branco. Chamo a garçonete sorridente e peço para fechar nossa conta.

– Edu, não quero ser estraga prazeres, mas acho que está na minha hora...

– Você não comeu quase nada, não está com fome? Para mim salada é só a entrada...

– Não, em plena segunda-feira, fico com a minha comida light porque tenho tendência a engordar. A propósito, já faltei à academia hoje.

– Não vai me dizer que você é dessas viciadas em academia? Que só vivem à base de alface?

– Gosto de correr, malhar e faço ioga, mas não sou uma viciada em academia, do contrário não estaríamos aqui, te garanto.

– Você não precisa se matar na academia. Gosto de curvas. Sou motociclista. – Ele brinca, divertindo-se com meu visível desconforto.

Uau! A coisa começa a esquentar e antes que pegue fogo, insisto em dividir com ele a conta que acabou de chegar, mantendo minha soberania de mulher independente. Aposto que ele não vai querer aceitar a divisão. Acerto na mosca! Nada de rachar a conta. Do tipo macho alfa. Ele quase se ofende.

No caminho para o estacionamento ele põe a mão nas minhas costas e me conduz pelos corredores do shopping quase vazio até o meu carro. Abro a porta e dou-lhe um beijo de despedida... No rosto. Ele parece decepcionado, mas não força a barra. 

– Obrigada, tivemos uma noite muito boa. Queria te pedir para não comentar com ninguém que nos vimos fora da redação. Não quero que pensem bobagens.

– Como você quiser. Tudo bem para mim se mantivermos a nossa amizade em segredo. 

Ele continua e muda o rumo da conversa.

– Amanhã o Fernando vai a uma reunião em São Paulo. Teremos modificações no jornal.

– Espero que nossas cabeças não rolem, digo bem-humorada, como se o risco de perder o emprego fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Rimos e começo a me despedir.

– Então, até amanhã.

– Até amanhã, obrigado por ter vindo. Podemos sair de novo? Quer ter uma primeira vez comigo, digo, na moto?

– Vamos combinar. Quem sabe em outro dia...

Bem safadinho o Edu, com essa última pergunta de duplo sentido. Fico imaginando... Até que uma nova primeira vez, depois de tantos meses, ia ser tudo de bom. Vou para casa e me jogo no chuveiro. Apesar da hora tenho que lavar o cabelo, tomo um banho quase frio, porque o calor está demais. Deito e fico repassando o dia estranho e os últimos acontecimentos. Vamos devagar Nina, devagar...

No dia seguinte repito a rotina de todas as manhãs e vou ao trabalho. Hoje capricho no look, não sei se consciente ou inconscientemente quero estar me sentindo poderosa e coloco um vestido e saltos. Completo o visual com um blazer porque o tempo está ameaçando mudar. Dou um jeito no cabelo e faço uma maquiagem suave. Espero de verdade que não tenha que ir fazer nenhuma matéria na rua, porque não estou arrumada de forma prática. Pensando bem, o fato de ter me arrumado assim hoje vai me ajudar muito a passar um recibo de “estou a fim de você, por isso caprichei no visual”, eu não tinha pensado nisso, a ficha caiu agora, mas é tarde para voltar atrás. Não quero que o Edu pense que estou desesperada para arrumar um homem.

 Respiro fundo, conto até dez e entro confiante na redação. Vou até a minha mesa e no caminho cumprimento a todos. Como sempre poucos respondem. Embaixo do teclado do meu computador, uma rosa, sem cartão de identificação nem nada. Imagino de quem seja e procuro meu Don Juan com os olhos. Não o encontro. Será que não veio? Então quem deixou a flor? Logo sou arrancada dos meus pensamentos pela Vanessa.

– Procurando alguém Nina?

– Não, deveria? 

– Foi só uma pergunta. É que vi você olhando para os lados e imaginei que pudesse estar procurando alguém.

– Não, impressão sua. Algum recado?

– Nenhum. Hoje o Dr. Fernando foi a uma reunião em São Paulo na matriz do jornal e não virá.

– Obrigada Vanessa, agora preciso fechar a matéria sobre o caso daquele sequestro do empresário na Barra da Tijuca. Se puder me dar licença... 

– Claro, tenha um bom trabalho querida. 

Após o “querida” mais falso que já ouvi na vida, a fofa sai fazendo um toc toc irritante com as sandálias de salto agulha, sempre metida numa saia justa. O que temos para hoje é saia roxa com blusa cinza e sandálias pretas, ótimas para ir ao funeral do bom gosto e da noção. Sorrio sozinha e ligo o computador. Tenho uma caixa com simplesmente mais de cinquenta e-mails para ler. O mais recente é do Edu, sinto meu sangue congelar. Fico vermelha como um camarão, pois na hora que começo a ler ele entra na redação e vem vindo em minha direção. Finjo não vê-lo e me concentro na leitura do e-mail:


De: eduardodamatta@jornalacao.com.br

Para: ninadonatteli@jornalacao.com.br

Assunto: Conhecer você melhor

Nina,

Hoje quero te ver de novo. Quero muito te conhecer melhor. Diz que sim.

Beijo,

Edu


– Então... É sim?

Nossa, nem deu tempo de responder e ele já está ao meu lado, falando de pertinho e baixinho para ninguém ouvir. Não sei por que, mas fico com a impressão de que tem um par de olhos bisbilhoteiros em cima de nós. Se eu não cortar o mal pela raiz posso me meter em confusão. Então respondo pessoalmente:

– Hoje não vai dar Edu, tenho que ir à academia. Já faltei ontem. Hoje vou fazer uma aula de ioga. Fica para outro dia.

– Amanhã?

– Não sei. A gente se fala.

– Tudo bem então, mas não vou desistir assim tão fácil.

Quase morro do coração, mas mantenho a pose, dou um sorriso amarelo e continuo a ler meus e-mails. O Edu vai para a sala dele e desaparece. A fofa parece ter se dado por satisfeita e volta aos seus afazeres. Foco totalmente no trabalho. Termino minhas matérias, respondo a alguns e-mails e lá pelo meio dia resolvo sair para almoçar. De repente uma mensagem da minha amiga Tati no meu celular. Tinha esquecido completamente do almoço que havíamos marcado para hoje num restaurante japonês. Retorno e aviso a ela que estou chegando. Mais dez minutos e entro no restaurante.

– Taaati! Você está simplesmente incrível! E magérrima!

Abraço minha amiga carinhosamente, faz tempo que não nos vemos. Ela está trabalhando no centro da cidade, mas veio a uma reunião próxima ao jornal e então marcamos para nos ver, porque recentemente a perdi para um marido ciumento e adorável, tendo sido madrinha e testemunha do casamento. 

– E aí Nina, conte-me tudo!

– Não tenho nada para contar.

– Te conheço desde criança amiga, só pela sua inquietação e por esses olhos brilhando farejo uma grande novidade. Vai desembuchando logo...

– Conheci um cara.

– Quando? Quem é?

– Bem, na verdade eu já o conhecia, ele trabalha comigo. É bonito, simpático, bem-humorado...

– Bom de cama!

– Isso eu ainda não experimentei Tati.

– Então você não conheceu o cara!

Rimos muito. Tati é o meu oposto. Segura, descolada, desencanada, moderna, e consegue separar muito bem amor de sexo. Para ela, só se conhece verdadeiramente um cara, na cama. Fazendo o test drive como ela diz.

– Qual é Nina, fez de novo a donzela desprotegida?

– Não deu tempo ainda Tati, nem tivemos oportunidade. Saímos ontem pela primeira vez.

– Não teve oportunidade? Onde ele te levou? Para conhecer a Catedral Metropolitana? Ou a Igreja dos Capuchinhos?

– Não brinca Tati, só saímos e conversamos, mas não rolou nada.

– Amiga, seu estado de carência é perigosíssimo. Toda essa empolgação com um cara que você nem experimentou. Preocupante.

– Fala de você Tati, como vai a vida de casada?

Desvio o assunto e dá certo. Minha amiga adora falar de si mesma.

– Maravilhosa, entediante, excitante, de tudo um pouco.

– Os adjetivos citados não combinam entre si... Você me confunde Tati!

– Dividir o dia a dia com alguém está longe de ser fácil, mas estou adorando a experiência. Na verdade estou muito feliz!

– Isso é o que importa para mim, que você esteja feliz, porque você é mesmo uma caixinha de contradições.

– Acho que esse deve ser o meu charme.

– Com certeza, amiga.

Conversamos por mais uma hora e, como tudo que é bom acaba rápido, pagamos nossa conta com a promessa de nos vermos em breve, no aniversário do André, marido dela. Vai rolar uma festa em Búzios, na casa de praia deles e fui intimada a ir. Sozinha ou acompanhada. Após prometer que não faltarei à festa, Tati me libera entre risos e abraços, e por último me diz quase diretamente no ouvido:

– Ei, dona puritana, faz o teste, experimenta e depois não se esquece de me contar, até os mais sórdidos detalhes...

– Fechado.

Falo em voz bem baixa. 

Após nos despedirmos mais uma vez, entro na redação e dou de cara com a fofa espionando meus e-mails. Havia deixado a caixa de diálogo minimizada e com a proteção de tela. Ela ficou passada quando deu de cara comigo e foi logo se desculpando:

– Nina, você deixou seu computador ligado. Vim desligar para você, porque achei que não fosse mais voltar hoje. – Gaguejou.

– Olha só Vanessa, agradeço muito sua gentileza, mas deixei tudo minimizado durante meu almoço. De mais a mais se eu não fosse voltar, teria avisado ou desligado meu computador não acha?

– Claro, foi bobeira minha. Desculpe Nina, não li nada, posso garantir.

– Não estou preocupada com isso Vanessa, não tenho nada para esconder.

Minto.

– Da próxima vez, por favor, passa uma mensagem e pergunta se eu vou voltar, não sai tomando atitudes tá bom?

– Tudo bem, desculpe mesmo. Só quis ajudar.

Faço uma anotação mental para colocar uma senha no meu computador e desligá-lo quando sair. Fico com vontade de esganar a fofa com minhas próprias mãos e respiro no saco. Não gostei nadinha do que ela fez e vou ficar de olho nessa periguete. Além do mais, a rosa não estava mais no lugar onde deixei de manhã, mas não quis perguntar para não polemizar e chamar atenção dos outros sobre mim. Quanto menos, melhor.

Minhas tarefas e o expediente chegam ao fim e ganho a rua. Estava me sentindo sufocada naquela redação. Pego o metrô ainda vazio, felizmente não precisei me dirigir a nenhum local de crime ou entrevista hoje e pude me dar ao luxo de deixar o carro na garagem. 

Entro em casa e troco rapidamente de roupa. Partiu academia! Corro meia hora na esteira e depois faço um pouco de musculação. Vou repassando os últimos acontecimentos. O Edu, a flor, a fofa. Não consigo chegar a nenhuma conclusão. Vou deixar rolar. É melhor. Subo para a aula de ioga. Hoje não estou conseguindo me concentrar em nada. Não me concentro na saudação ao sol, nem ao menos sustento o corpo nas posições. Aos poucos, a instrutora começa a fazer as práticas de respiração e finalmente consigo ficar tranquila. Namastê!

Ao voltar para casa rego minhas duas únicas plantinhas, coloco as roupas na máquina de lavar, arrumo e limpo a casa, tomo um banho maravilhoso, faço um suco de laranja e aqueço a quiche de queijo branco que trouxe da casa da minha mãe no domingo. Coloco uma música para tocar no celular e finalmente relaxo.

No dia seguinte, acordo mais cedo e vou direto para a redação, pois tenho que sair com o pessoal da reportagem para fazer uma matéria sobre “A musa do trem da Central”. Vai ser divertido. Tenho que entrevistar os usuários dos trens suburbanos, para saber qual será a musa escolhida. É uma grande jogada de marketing da empresa que administra os transportes. Concorrerão dez mulheres que pegam os trens todos os dias e que foram escolhidas pelos próprios passageiros. O prêmio é um ano de passagem grátis para a vencedora. Acho que vou gostar disso, porque vou entrevistar mulheres reais, que vão e voltam do trabalho comprimidas que nem sardinhas em lata dentro dos vagões e ainda assim conseguem manter o bom humor e a vaidade feminina. Totalmente diferentes dessas magrelas que são impostas como modelo de beleza e não nos representam. Meu trabalho tem esse lado social, que me faz sentir viva e próxima das pessoas de verdade. É isso que me faz continuar no jornal, além das faturas e contas que chegam todo mês, é claro.

Chego animada para o trabalho e entro na van com o pessoal da reportagem. Hoje não caprichei muito no visual. Visto uma calça cáqui, uma camisa social básica e saltos grossos médios. Os cabelos presos num coque casual estão completando o look do dia. Preciso estar confortável. Olho para o lado e lá está o motivo da minha inquietação. Lindo, moreno, de jeans e camisa branca, óculos aviador e aquele sorriso de matar qualquer uma. Estranho a presença dele. O que é que ele está fazendo aqui? Deveria estar na sua sala, no ar-condicionado. Que eu saiba, ele tem mais o que fazer...

– Bom dia Nina.

– Oi Edu.

– Dormiu bem?

– Não poderia ter dormido melhor.

– Acho que poderia sim. – Ele diz bem baixinho para ninguém ouvir. Ainda bem que os outros estão tagarelando, distraídos.

E me dá aquele sorriso bem cínico que me enche de calor. Vai ser um longo dia. Ele não desiste.

– Estranhando a minha presença? – Ele pergunta.

– Bem, não é que você não possa vir, mas é que não precisa...

– Você é a responsável pela matéria. Só isso já me faz querer te acompanhar. Vamos nos divertir muito, tenho certeza. – Ele diz, malicioso.

Deus do céu! Tudo o que este homem fala está carregado de duplo sentido! Que calor!

Passamos a manhã toda entre os passageiros e ouvimos histórias de vida incríveis. Registramos tudo para contar aos leitores que se identificarão com muitas delas. A vencedora do concurso, Jéssica, vinte e dois anos, é uma mulata com um corpo violão, uma vasta cabeleira indomada e um sorriso incrível. Conversar com ela foi uma grande lição de vida. Órfã de pai e mãe, foi acolhida por parentes e trabalhando como diarista conseguiu fazer um curso de manicure, profissão que lhe garante o sustento e o dos dois filhos, que cria sozinha. Uma mulher guerreira que na ida e na volta encara um trem e um ônibus lotados todos os dias, saindo de Madureira com destino a Copacabana, onde trabalha num salão de beleza. Além de bonita é muito simpática. Vitória merecida. Qualquer dia desses apareço no salão que ela trabalha e faço as unhas.

Volto em silêncio dentro da van, repassando a manhã na memória e me preparando para redigir a matéria. Lidar diretamente com as pessoas aguça minha sensibilidade e faz aflorar minha criatividade para escrever. Sinto os olhos do Edu em mim e finjo não perceber. Será que ele tem noção da reação que provoca? Não quero ficar empolgada, mas também não consigo ser indiferente.

Chegando ao jornal, deixo minhas coisas e resolvo almoçar. Uma e meia da tarde e ainda não comi nada. A fome bate forte. Não avisto a fofa. Redação vazia. Todos devem estar no horário do almoço. Quando estou saindo da sala vejo o Edu encostado à porta.

– Não tem como você escapar de mim hoje. Vamos almoçar, venha, conheço um restaurante com uma comida maravilhosa! Gosta de frutos do mar?

– Adoro. Tudo bem. Vamos.

Cheia de coragem e fazendo a mulher decidida o acompanho. Pegamos um táxi e vamos a um restaurante na Marina da Glória. O dia está lindo. Sol e muita luz. Uma típica tarde de setembro. Pedimos logo a entrada. O Edu sugere um peixe com alcaparras e uma salada verde. Muito refrescante. Perfeito.

– E então, vai parar de fugir de mim?

– Por que, você por acaso está me perseguindo?

– De certa forma sim.

E sorriu. Aquele sorriso, com aquelas covinhas, que dão a ele uma vantagem sobre todos os outros homens que já conheci. Atitude de homem e jeito de menino. Um sorriso tão jovem que quase me faz pensar que ele é mais novo do que realmente é. De repente, me dou conta de que não sei nem a idade dele e pergunto:

– Quantos anos você tem?

– Isso faz diferença?

– Só para saber, se vamos nos conhecer melhor, faz diferença sim.

– Tenho trinta. 

Tem a idade do meu irmão do meio, Enzo. Espero que ele não seja igual no quesito mulheres. Meu irmão é um verdadeiro predador. Não tem namorada fixa, tem ficantes e peguetes como ele gosta de dizer. Na verdade o Enzo não quer compromisso e a profissão de piloto da aeronáutica, recém-conquistada com muito sacrifício, toma muito do seu tempo. Não o culpo. Ele está descobrindo o mundo e não para em casa.

– Idade do meu irmão do meio. É piloto da FAB. Acabou de se formar. – Digo.

– Quantos irmãos você tem? Você disse que vem de uma família bem agitada. 

– Nossa, você guardou essa informação? 

– Sou um jornalista. Esse é o meu trabalho. Além do mais, tudo que diz respeito a você me interessa, Nina. Não estou brincando.

Disfarço a inquietação que seu jeito de falar me provoca e continuo.

– São dois irmãos, além do Enzo tenho o Marcelo, cirurgião geral, recém-casado com a Ana Clara, também médica. É o irmão confidente, com quem tenho mais afinidade. Amigo para todas as horas. A minha cunhada, Ana, também é um amor. 

– E seus pais? São vivos? Estão juntos?

– São vivos, estão juntos e não se desgrudam. Meu pai é coronel do exército, já está na reserva, e minha mãe, professora aposentada. Somos muito unidos. Minha avó Dora, mãe da minha mãe, e meu irmão Enzo, ainda moram com eles na Tijuca. O Marcelo foi morar na Barra depois de casado.

– E sua família? Fala um pouco de você. Já te dei minha ficha completa.

– Não há muito que dizer. Sou de uma tradicional família mineira, Meu pai vive hoje numa fazenda no Tocantins e possui algumas propriedades onde cria gado e mantém um frigorífico. Minha mãe não aguentou as aventuras rurais dele, e o deixou quando eu ainda era criança. Fomos morar em Belo Horizonte, onde ela estudou Direito e hoje é promotora pública. A separação na época foi um grande desgosto para meu avô materno, também fazendeiro, ele era um cara antiquado e severo, que não aceitava ter uma filha divorciada. Não havia ninguém assim na família. Foi muito difícil, mas superamos. Sou filho único. Minha mãe casou-se novamente com um advogado muito conhecido em Minas Gerais e vivem juntos até hoje. Vim para o Rio estudar Comunicação, passei um ano viajando pelo mundo e há alguns anos estou no jornal. Como você vê, não há muito que dizer. 

– Queria perguntar algo, mas estou sem coragem. – Confesso.

– Pode me perguntar qualquer coisa.

– Você tem uma namorada, esposa? – Pergunto e me arrependo no minuto seguinte.

– No momento, estou sozinho. – Ele diz de maneira vaga e com o olhar perdido.

Senti que ele não queria falar sobre o assunto. Percebo certo constrangimento nele e acho melhor não aprofundar a conversa. Queria perguntar muitas coisas, inclusive se tinha sido ele a deixar a rosa ontem de manhã na minha mesa, mas ao invés disso apenas assinto com a cabeça. Ele me encara fixamente e diz:

– Nina, quando disse que quero te conhecer melhor, é verdade. Dá uma chance pra gente.

Fiquei sem graça, mas continuei:

– Bem, você já me conhece, sabe sobre minha família e um pouco sobre mim.

– Nada disso. Ainda não sei onde você mora. – Ele diz.

– Também não sei onde você mora.

– Moro no Leblon. Quase não fico em casa. – Ele explica.

– Eu em Copacabana. Minha amiga Laura casou-se com um italiano e foi viver em Milão. Ela quis manter seu apartamento, então o alugou para mim por tempo indeterminado por um preço praticamente simbólico, enquanto junto uma grana para poder comprar o meu próprio. O local é pequeno e fica num prédio bem antigo e sem elevador, mas adoro o bairro. Posso fazer tudo de metrô. Quase não tiro meu carro da garagem, alugada no prédio vizinho.

– Foi assim que você virou gente grande. – Ele diz, sorrindo.

– É, estou me acostumando com a liberdade e também com a solidão. É estranho não ter minha família por perto...

– Você mora sozinha, mas não é sozinha. Você tem sua família por perto, ainda que eles não morem com você. – Ele reflete.

– É isso, a dificuldade maior está justamente em me adaptar a viver sem eles. Sem todo aquele barulho e confusão, por outro lado preciso de um espaço só meu...

A conversa flui e vai para um lado mais íntimo do que eu esperava, e quando vejo, três da tarde. Hora de voltar e terminar a matéria. O Edu pede a conta e me leva de volta ao jornal. Não sobe, diz que não precisa voltar à redação hoje. 

O trabalho dele é um pouco diferente do meu. Praticamente tudo no jornal passa por ele. É um excelente profissional, e, apesar da pouca idade já conquistou seu espaço. Tem um tremendo feeling para uma boa matéria. Tenho muito a aprender com ele. O Fernando é o diretor do jornal. Eu o apelidei secretamente de “poderoso chefão”. Ele parece confiar muito no trabalho do Edu. Apesar de não gostar do foco das nossas reportagens, pois tratam principalmente de problemas e violência urbana, sinto que lá poderei desenvolver uma bela carreira profissional.

Entro na minha sala e recebo a visita da Vanessa. Estou sem paciência, mas forço um sorriso e digo:

– Oi Vanessa, algum problema?

– O Dr. Fernando ligou. Ele perguntou por você. Disse que tinha ido almoçar. – Ela diz, parecendo analisar minha reação.

– Obrigada, mais alguma coisa, ele deixou alguma instrução? Um recado?

– Não, só isso, tenha uma boa tarde Nina.

– Obrigada, para você também.

Cada dia fica mais insuportável aguentar a fofa. Ninguém me tira da cabeça que ela jogou minha flor fora e que está me espionando. Não vou dar a ela o gostinho de perguntar. A propósito, hoje ela está toda de rosa. Calça, blusa, brincos e pulseiras, tudo enjoadamente rosa. Mais cafona impossível. Toda combinando. Também não entendo qual o interesse dela na minha vida pessoal. Estou de olho nela, ah se estou!


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